O presente artigo aborda o fenômeno popularmente conhecido como “Água Feia”, recorrente nas Reentrâncias Maranhenses e possivelmente relacionado às dinâmicas hídricas da Bacia Amazônica. Trata-se de um evento amplamente reconhecido pelas comunidades pesqueiras do litoral ocidental maranhense, mas ainda pouco descrito na literatura científica sob essa denominação. Caracteriza-se pela alteração da coloração da maré, aumento da velocidade das correntes costeiras, transporte intenso de sedimentos e impactos diretos sobre a pesca artesanal. Apesar dos prejuízos temporários, o fenômeno é associado pelos pescadores à renovação biológica dos estuários e à expectativa de safras abundantes. O artigo também destaca os efeitos observados entre 2020 e 2022, quando a ocorrência prolongada do evento favoreceu a proliferação de mexilhões no litoral de Apicum-Açu.
As Reentrâncias Maranhenses constituem uma das regiões costeiras mais singulares do Brasil, sendo caracterizadas por extensos manguezais, estuários, canais naturais e forte influência das marés. Nesse espaço geográfico, as populações tradicionais desenvolveram, ao longo dos séculos, um profundo conhecimento empírico sobre os ciclos naturais que regulam a pesca e a subsistência local.
Entre os processos observados pelos pescadores, destaca-se a chamada “Água Feia”, denominação popular atribuída a um período em que as águas marinhas apresentam alterações perceptíveis de cor, salinidade e comportamento das correntes. Embora ainda pouco investigado pela ciência sob essa nomenclatura, esse evento é reconhecido como um fator relevante para os ciclos produtivos da pesca artesanal.
O objetivo deste trabalho é descrever o fenômeno a partir do saber tradicional local, relacionando-o a processos hidrológicos de grande escala e analisando seus impactos ambientais e socioeconômicos.
2. Origem e Caracterização do Fenômeno
A “Água Feia” ocorre com frequência anual nas Reentrâncias Maranhenses, principalmente durante o período chuvoso, geralmente entre o primeiro e o segundo bimestre de cada ano. Registros baseados na memória local indicam que, em 2020, sua duração se estendeu da segunda quinzena de fevereiro até meados de abril, sendo considerada uma das ocorrências mais prolongadas.
Esse evento pode estar associado à elevada descarga hídrica dos grandes rios amazônicos, especialmente do rio Amazonas, responsável por uma parcela significativa do volume de água doce lançado nos oceanos. Durante o período de cheias, essa descarga pode avançar centenas de quilômetros no Oceano Atlântico, provocando alterações temporárias na salinidade das águas costeiras.
Como consequência, observa-se uma interferência no equilíbrio das correntes marinhas do litoral norte brasileiro. Nas Reentrâncias Maranhenses, isso se traduz em correntes costeiras mais intensas e com padrões de deslocamento atípicos em relação ao regime normal das marés.
3. Aspectos Visuais e Ambientais
Durante a ocorrência da “Água Feia”, a maré apresenta mudanças visíveis em sua coloração. A água, normalmente de tonalidade verde-turva, passa a adquirir aspecto escurecido, semelhante ao café, em função da elevada carga de sedimentos orgânicos e minerais transportados.
Além da alteração cromática, observam-se:
- aumento da turbidez da água;
- presença significativa de detritos vegetais;
- redução temporária da salinidade;
- intensificação das correntes;
- maior risco à navegação de pequenas embarcações.
Essas condições promovem mudanças relevantes na dinâmica ecológica dos ambientes costeiros e estuarinos.
4. Impactos na Pesca Artesanal
Durante o período de ocorrência da “Água Feia”, a pesca artesanal sofre retração significativa, com impactos em toda a cadeia produtiva. A intensificação das correntes dificulta o lançamento e a retirada de redes, espinhéis e armadilhas, além de aumentar o risco de perda de equipamentos.
A redução temporária da captura gera preocupação entre os trabalhadores do setor. Contudo, segundo o conhecimento tradicional local, esse efeito é passageiro. Após o evento, os estuários tendem a apresentar maior abundância de peixes, crustáceos e outros organismos, impulsionados pelo aporte de nutrientes transportados pelas correntes.
O município de Apicum-Açu destaca-se nesse contexto por possuir uma expressiva frota de embarcações de pesca artesanal, sendo fortemente dependente dessa atividade. Durante a ocorrência do fenômeno, grande parte das embarcações permanece ancorada, e poucos pescadores se arriscam no mar.
Dessa forma, a “Água Feia” não é interpretada pelas comunidades tradicionais como um evento negativo, mas como um indicativo de renovação ambiental e de futuras safras abundantes.
5. Considerações Finais
A “Água Feia” constitui um fenômeno relevante para a compreensão das dinâmicas socioambientais das Reentrâncias Maranhenses. Embora ainda pouco explorado pela literatura científica sob essa denominação, sua recorrência e seus efeitos são amplamente reconhecidos pelas populações locais.
A articulação entre o conhecimento tradicional e a investigação científica pode contribuir para uma melhor compreensão desse processo, possibilitando não apenas sua descrição mais precisa, mas também o fortalecimento de estratégias de gestão sustentável da pesca artesanal na região.
5. O Caso dos Mexilhões no Litoral de Apicum-Açu
Castro (2023) sugere que a prolongada duração do fenômeno em 2020 esteve associada a efeitos excepcionais na região litorânea de Apicum-Açu. A redução prolongada da salinidade das águas teria criado condições favoráveis à reprodução natural de mexilhões em larga escala.
Como resultado, a coleta e a comercialização desse molusco intensificaram-se ainda naquele ano, estendendo-se ao longo de 2021 e 2022. No Porto Tabatinga, registrou-se o desembarque diário de grandes volumes do produto, contribuindo para o fortalecimento da economia pesqueira local e para a geração de renda alternativa para diversas famílias.
Esse episódio evidencia como fenômenos naturais, embora inicialmente adversos, podem gerar oportunidades econômicas quando compreendidos e aproveitados pelas comunidades costeiras.
Imagem 2: Desembarque de mexilhões no Porto Tabatinga em 2021.
6. Considerações Finais
A “Água Feia” representa um importante exemplo da interação entre processos naturais de grande escala e os modos de vida tradicionais das Reentrâncias Maranhenses. Embora ainda pouco descrito na literatura científica sob essa denominação, o fenômeno possui ampla relevância prática para as comunidades pesqueiras que dependem diretamente da observação dos ciclos naturais.
A valorização do conhecimento empírico local, aliada a futuras pesquisas oceanográficas e climatológicas, poderá contribuir para uma compreensão mais aprofundada desse processo, possibilitando previsões mais precisas e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da pesca artesanal.
Dessa forma, a “Água Feia” não deve ser compreendida apenas como uma anomalia hídrica, mas como um componente fundamental da dinâmica socioambiental do litoral ocidental maranhense.
Referências
CASTRO, Mauro José Santos. Igarapé Tabatinga. São Luís: 2023. p. 75.
RODRIGOHUHN. Rios da Amazônia: a vida em 10 artérias que nutrem a floresta. 2025. Disponível em: https://revistaamazonia.com.br/rios-da-amazonia-dez-gigantes-que-sustentam/. Acesso em: 18 abr. 2026.
Nota: As imagens 1 e 2 pertencem a arquivo pessoal do autor.